O preço não tem nada a ver com o custo do produto. Quem define o preço é o mercado”, disse um executivo da Mercedes-Benz, para explicar porque o brasileiro paga R$ 265.00,00 por uma ML 350, que nos Estados Unidos custa o equivalente a R$ 75 mil.

“Por que baixar o preço se o consumidor paga?”, explicou o executivo.

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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Sobre os preços dos carros no Brasil

Fonte: mises.org.br

http://mises.org.br/Article.aspx?id=1027

Algumas correntes de internet estão divulgando um comparativo entre os preços dos carros no Brasil e os preços desses mesmos carros em outros países.  Como era de se esperar, as diferenças de preços são gritantes e até mesmo revoltantes, com alguns modelos chegando a custar o triplo do preço aqui no Brasil. Particularmente chamativo foi o caso do Honda City.  Segue um trecho de uma reportagem:
As montadoras têm uma margem de lucro muito maior no Brasil do que em outros países. Uma pesquisa feita pelo banco de investimento Morgan Stanley, da Inglaterra, mostrou que algumas montadoras instaladas no Brasil são responsáveis por boa parte do lucro mundial das suas matrizes [...] O analista Adam Jonas, responsável pela pesquisa, concluiu que, no geral, a margem de lucro das montadoras no Brasil chega a ser três vezes maior que a de outros países.
O Honda City é um bom exemplo do que ocorre com o preço do carro no Brasil. Fabricado em Sumaré, no interior de São Paulo, ele é vendido no México por R$ 25,8 mil (versão LX). Neste preço está incluído o frete, de R$ 3,5 mil, e a margem de lucro da revenda, em torno de R$ 2 mil. Restam, portanto R$ 20,3 mil.
Adicionando os custos de impostos e distribuição aos R$ 20,3 mil, teremos R$ 16.413,32 de carga tributária (de 29,2%) e R$ 3.979,66 de margem de lucro das concessionárias (10%). A soma dá R$ 40.692,00. Considerando que nos R$ 20,3 mil faturados para o México a montadora já tem a sua margem de lucro, o "Lucro Brasil" (adicional) é de R$ 15.518,00: R$ 56.210,00 (preço vendido no Brasil) menos R$ 40.692,00.
Será possível que a montadora tenha um lucro adicional de R$ 15,5 mil num carro desses? O que a Honda fala sobre isso? Nada. Consultada, a montadora apenas diz que a empresa "não fala sobre o assunto".
O jornalista faz um salseiro com os números, deixando tudo bastante confuso.  Vou tentar clarear um pouco o que ele escreveu.
O Honda City sai da montadora em Sumaré a R$ 20.300.  A concessionária mexicana o revende por R$ 25.800.  A diferença de R$ 5.500 é explicada pelo preço do frete pago pela concessionária mexicana e pela margem de lucro dela.
Até aí, tudo certo.  No entanto, a coisa fica mais animada quando se descobre que esse mesmo carro que sai da montadora a R$ 20.300 é revendido pelas concessionárias ao consumidor brasileiro por R$ 56.210.  O que explica esse encarecimento?
Para entender esse processo, muito antes de xingar as montadoras de "gananciosas" por quererem altos lucros (todo mundo sabe que gananciosos são só os outros; nós nunca somos), é preciso olhar como funciona a carga tributária no Brasil.
O assunto é extremamente aborrecido e não é minha intenção entrar em detalhes aqui.  Basta dizer apenas que, por exemplo, o IPI recai sobre o preço do veículo que a montadora venderá para a concessionária brasileira, mas não para a concessionária mexicana, pois o IPI não se aplica a produtos exportados.  O mesmo ocorre com o ICMS, que não incide sobre produtos industrializados destinados à exportação.  Já a COFINS recai sobre a receita bruta da montadora, o mesmo ocorrendo com o PIS.
Ou seja: suponha que você inicialmente queira vender um produto a $100 aqui no Brasil.  Imediatamente você terá de acrescer uns $13 só de IPI (a alíquota é de 13% para automóveis com motor de até 2,0 litros). Além do IPI, tem o ICMS (de 18% para São Paulo, estado onde o Honda City é fabricado), cuja base de cálculo é $100. Ou seja, você vendeu por $113, deu $13 para o governo federal e mais $18 para o governo estadual.  Sobre a sua receita bruta, ainda vão incidir 7,6% de COFINS e 1,65% de PIS.  E depois, sobre o lucro, ainda vai ter o imposto de renda de pessoa jurídica, que pode chegar a 25%.
Se quiser fazer os cálculos, vá em frente.  Eu tenho até medo...
Assim, utilizando-se os próprios dados contidos na reportagem, temos a seguinte sequência:
Preços
Preço de fábrica: R$ 20.300
Preço vendido para a concessionária: R$ 52.231,22
Preço da concessionária para o consumidor final: R$ 56.210

Lucros
Lucro da montadora: R$ 15.518,00
Lucro da concessionária: R$ 3.979,66

Carga tributária: R$ 16.413,22

Observe que a carga tributária é maior que o lucro da montadora e mais de 4 vezes maior que o lucro da concessionária.  É curioso notar que os brasileiros condenam o lucro da montadora, que ao menos está lhes oferecendo um bem, e dão passe livre para o esbulho do governo, que em troca lhes dá dois tipos de estradas: as pedagiadas e as esburacadas. Não estou dizendo que as montadoras são inocentes.  Seria grande ingenuidade dizer isso.  Por exemplo, sobre a importação de carros, algo que traria grande concorrência para o setor, incide um imposto que está na faixa dos 35%.  Trata-se de um imposto criado justamente para atender aos interesses das montadoras nacionais.  Sem esse imposto, o preço dos importados ficaria muito menor, a concorrência seria maior, os preços dos carros nacionais teriam de ser diminuídos e, consequentemente, o lucro das montadoras (já que é com isso que o brasileiro se revolta) seria sensivelmente reduzido.
No extremo, se não houvesse essa enxurrada impostos (IPI, ICMS, PIS e COFINS) e não houvesse também o imposto sobre importação, tanto aqueles R$ 16.413,22 de carga tributária quanto o lucro de R$ 15.518 da montadora certamente seriam acentuadamente menores, o que traria o preço final para perto do preço mexicano.  Quando há concorrência, especialmente de importados, não dá pra colocar os preços nas alturas.
Poucos se lembram, mas logo no início do Plano Real, uma das medidas para conter o aumento de preços foi a brusca redução do imposto de importação.  Para os automóveis, as alíquotas caíram de 50% para 20% em setembro de 1994.  Essa redução vigorou até março de 1995, quando o governo voltou a elevá-las, desta vez dando uma pancada para 70%.  Aquele curto período de redução foi suficiente não apenas para atemorizar as montadoras nacionais, que repentinamente viram seus confortáveis lucros evaporaram, como também para trazer um impressionante revigoramento à frota nacional.  Os importados tornaram-se comuns principalmente nas ruas de São Paulo, onde desfilavam Rolls-Royces, Corvettes, BMWs, Mitsubishi Lancers, Audis, Alfa Romeos 164, Subarus e Mercedes-Benz C 180, coisa rara no Brasil da época.  No Rio de Janeiro, na Avenida das Américas, surgiram nada menos que 20 importadoras de carros se acotovelando para disputar clientes, algo até então inédito.  Mas toda essa farra foi interrompida pelo governo em março de 1995, para júbilo das montadoras nacionais, que voltaram a operar sossegadas em seu oligopólio protegido pelo estado.
Mas além dos impostos e do protecionismo, há também um terceiro fator que explica os altos preços dos automóveis no Brasil: a subjetividade dos consumidores.  O preço de um carro no Brasil não depende apenas de custos de produção, impostos, investimentos e margens de lucro; depende também, e isso é algo bem acentuado no Brasil, de quanto o consumidor está disposto a pagar pelo produto. 
Por algum motivo — talvez histórico, talvez cultural —, o brasileiro sempre considerou carro um sinal de status.  Quanto mais chique e caro, melhor ele acha que será avaliado o seu posicionamento social.  Isso não é uma crítica, mas apenas uma constatação de um traço peculiar do brasileiro.  Aqui, quando um indivíduo ascende socialmente, uma de suas primeiras providências é trocar de carro (isso vale tanto para porteiros quanto para jogadores de futebol).  Ele está muito preocupado com o julgamento das outras pessoas.  Quanto mais caro o carro, melhor ele pensa que será visto pelos outros.  É aquele fenômeno conhecido como "novos ricos", que faz a alegria não só do mercado de automóveis, mas também do mercado de restaurantes chiques e do mercado imobiliário.
Sendo assim, a aquisição de um carro passa a ser guiada mais pelo seu preço do que pela real conveniência que o carro trará ao novo-rico — o que dá margem para as montadoras colocarem os preços muito acima dos preços que vigoram em outros países; e, como se vê, mesmo assim não faltam consumidores, haja vista os seguidos recordes de vendas. 
(Com efeito, se a preocupação fosse unicamente uma locomoção confortável, qualquer Mille ou Gol com ar condicionado daria conta do recado para uma família de 4 pessoas.)
Na há necessariamente nada de errado nesse comportamento novo-rico, mas é fato que ele ajuda a deixar os preços dos carros em níveis mais altos do que estariam caso o brasileiro fosse mais frugal (e ele não é).  É uma simples questão de oferta e demanda.
Portanto, três fatores explicam os preços dos carros no Brasil: carga tributária, protecionismo e o fenômeno brasileiro dos emergentes, um pessoal que não sabe bem o que comprar mas acha que está comprando bem porque está pagando caro.
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ATUALIZAÇÃO EM 01/07
Algumas pessoas ficaram revoltadas e outras demonstraram discórdia em relação a este terceiro item (comportamento dos consumidores).  Curiosamente, este é exatamente o item mais óbvio de todos — ou o menos controverso —, e pode ser compreendido por qualquer pessoa que não possua nenhum conhecimento econômico.  A lógica é simples:
Qualquer empresa — seja uma montadora de automóveis ou uma padaria — vai cobrar para os seus produtos o maior preço que puder, que seja consistente com o maior lucro possível.  Duas coisas colocarão um teto nesse preço máximo: a concorrência e a disposição dos consumidores em aceitar os preços praticados (fenômeno esse chamado de 'valoração subjetiva dos consumidores'). 
Para todo e qualquer empreendimento que lide com a venda de produtos não essenciais, são os consumidores que irão decidir o preço máximo que estão dispostos a pagar por estes produtos.
No caso brasileiro, as montadoras aparentemente ainda não chegaram a esse preço máximo para seus carros, pois os preços continuam subindo e os carros continuam sendo (muito) comprados, e os lucros continuam altos — o que significa que os consumidores de uma determinada faixa de renda continuam deixando claro que estão dispostos a continuar pagando os preços vigentes.
Sendo assim, que incentivo haveria para se reduzir preços?
Não há absolutamente nenhum motivo para afirmar que tal raciocínio seja controverso — a menos, é claro, que se parta do princípio de que um Honda City seja um bem absolutamente essencial para vida humana, e que sua compra é uma questão de sobrevivência.

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